quinta-feira, 18 de março de 2010

Monólogos a dois com velas à mistura

(dois solteiros num bar)

Jacinto: Amanhã faço quarenta anos. Tenho de comprar velas e ir buscar o bolo que encomendei.

Abrenúncio: Compraste o teu próprio bolo de aniversário?

Jacinto: Não comprei nada. A minha mãe é que o comprou. Eu só o vou buscar à pastelaria. Vai fazer-me uma festa surpresa mas não se sentiu muito bem, por isso não o pode ir buscar.

Abrenúncio: É uma festa surpresa e tu é que vais buscar o bolo?

Jacinto: Sim mas nem sequer vou olhar para ele. Já está embrulhado. Eu só o vou buscar.

Abrenúncio: Mas como pode ser uma festa surpresa se tu é que vais buscar o bolo e sabes que a festa está para acontecer?

Jacinto: Eu não sei quando vai ser a festa. Pois não? Pode ser às oito ou à meia-noite.

Abrenúncio: Oito da manhã? Como é que se pode fazer uma festa de anos às oito da manhã? Quem é que convidavam? O carteiro?

Jacinto: Não te rias.A minha mãe era capaz disso. Houve um ano em que apanhei uma bebedeira no meu dia de anos e não fui para casa. Ela fez a festa sem mim.

Abrenúncio: E cantou o quê? “Parabéns a ele”?

Jacinto: Tens muita piada.

Abrenúncio: Quantas velas vais comprar?

Jacinto: Sobraram dezasseis do aniversário do meu filho e cada caixa tem vinte e quatro. Por isso, como tenho quarenta, vou comprar só uma caixa. Podia comprar duas e deixar as velas do miúdo em paz mas assim ficava com quarenta e oito velas e4 não sabia o que fazer com as que sobrassem.

Abrenúncio: Podias guardá-las.

Jacinto: Não te rias mas lá em casa guardamo-las sempre. Aliás, nem sequer as acendemos.

Abrenúncio: Porque não?

Jacinto: Porque se acendêssemos, iam ficar com mau aspecto para a próxima vez que as usássemos. Não desperdiçamos nada lá em casa. Há uns anos atrás, o meu avô fez noventa e seis anos, Noventa e seis velas são quatro caixas, certo? Quatro vezes vinte e quatro, não é?

Abrenúncio: Certo.

Jacinto: Mas só tínhamos sessenta velas porque é o máximo de que a minha mãe precisa (ela decidiu deixar de fazer anos quando fez sessenta). Duas caixas e meia. Então comprámos três caixas. Faz setenta e duas velas. Sobram doze, certo?

Abrenúncio: Se tu o dizes…

Jacinto: Então confia em mim. Ficámos com doze velas a mais e decidimos dá-las à tinha sobrinha que estava quase a fazer trinta e seis e já tinha uma caixa nova de vinte e quatro. É viúva e não tem filhos por isso não precisa de muitas velas. Acho que também as usa quando o gato faz anos ou coisa do género. Espeta-as num queque. Mas, com ela, uma caixa dura muito tempo.

Abrenúncio: Continua.

Jacinto: Como estava a dizer, o meu avô fazia noventa e seis anos e só tínhamos sessenta velas. Ou seja, precisávamos de mais trinta e seis, uma caixa e meia. Pedimos trinta e seis ao meu irmão que tinha duas caixas cheias porque ia fazer quarenta e oito anos uns meses depois. Com estas fica tudo bem e o meu irmão ainda ficou com doze para os anos do filho vesgo que fazia doze na semana seguinte.

Abrenúncio: Tu tens uma família muito interessante.

Jacinto: Então pomos as noventa e seis velas no bolo do meu avô e começamos a acendê-las. Mas há tantas que, quando chegamos à última, metade já são só uns buracos no chantilly a deitar fumo. Mas se espreitasses para dentro dos buracos ainda conseguias ver a chama. O meu avô apagou as noventa e seis velas mas teve de ser uma de cada vez porque teve que soprar para dentro dos buracos e, ainda por cima, tem pouco fôlego. E sabes qual foi a melhor?

Abrenúncio: Nem me passa pela marmita.

Jacinto: Pediu noventa e seis desejos.

Abrenúncio: Concretizou-se algum?

Jacinto: Quatro, acho eu.

Abrenúncio: Acreditas nisso dos desejos? Quer dizer, acreditas que se concretizou?

Jacinto: Nã. Acredito em desejos mas não acredito que se concretizem. A não ser que seja um desejo fácil do tipo “desejo estar numa festa de anos”.Mas é preciso apagar as velas todas ou então o desejo não se concretiza. Basta ficar uma vela acesa e vai tudo por agua abaixo.

Abrenúncio: Imagina que desejaste que uma vela ficasse acesa?

Jacinto: O que queres dizer com isso?

Abrenúncio: Imagina que desejas que uma vela fique acesa e depois apagas todas. O que aconteceria?

Jacinto: Não me venhas com essas tretas de gajo que andou na universidade, está bem? Rodovalho, já viu bem este tipo? Mal se tenta ter uma conversa inteligente, ele começa logo com estas merdas. “Se desejas que uma vela fique acesa, o desejo não se concretiza a não ser que apagues todas”. São estas tretas que te ensinam na universidade. Hoje em dia.

Abrenúncio: Pois é. Fiz licenciatura em Análise Comparativa de Bolos de Anos e um mestrado em coberturas.

Jacinto: Não me admirava nada.

Abrenúncio: Vão ter chapelitos na festa? Não pode haver festa sem eles.

Jacinto: Não. Nada de chapéus.

Abrenúncio: Porquê?

Jacinto: Porque se vendem em caixas de cinquenta. O que vou fazer com os quarenta chapéus que sobram?

Abrenúncio: Podes dividi-los pela família.

Jacinto: Eu sei que posso. Mas por isso não o vou fazer. Até para a semana.

Abrenúncio: Adeus e parabéns. Diverte-te na festa.

Jacinto: Vou fazer isso. Brigadinho.

1 comentário:

Trambolho ao Postigo disse...

Muito bom!
Há uma parte que parece os triálogos que tenho com as minhas irmãs... (para dizer a verdade as nossas conversas são sempre assim)
Mas a nossa família é ainda mais complicada...